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Perda auditiva e demência: o que a ciência já sabe

Por que tratar a audição na maturidade é uma das decisões mais importantes para a saúde do cérebro.

Audição · Leitura de 6 min

Durante muito tempo, a perda auditiva foi tratada como um incômodo natural da idade — algo com que se aprende a conviver. A ciência das últimas décadas mostrou que essa visão está errada, e que o custo de "conviver" com ela pode ser alto demais.

Um problema silencioso e enorme

A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1,5 bilhão de pessoas convivam com algum grau de perda auditiva — número que deve chegar a 2,5 bilhões em 2050. Depois dos 60 anos, cerca de 1 em cada 4 pessoas tem perda auditiva em grau que compromete o dia a dia.

O processo costuma ser gradual. Primeiro, a televisão um pouco mais alta. Depois, a dificuldade de acompanhar conversas em ambientes com ruído — o restaurante, o almoço de família. Aos poucos, a pessoa participa menos, pergunta menos, se isola mais. E é justamente aí que mora o risco.

O elo com a demência

A Comissão de Demência da revista The Lancet, um dos grupos científicos mais respeitados do mundo no tema, lista a perda auditiva não tratada entre os principais fatores de risco modificáveis para demência — no relatório de 2024, ela responde, sozinha, por cerca de 7% do risco populacional, um dos maiores pesos entre todos os fatores que podemos modificar.

Os mecanismos propostos são três: o esforço constante que o cérebro faz para "decifrar" sons mal ouvidos, a redução do estímulo auditivo às áreas cerebrais da linguagem e da memória, e o isolamento social que a perda auditiva provoca.

O dado que mudou a conversa: no estudo ACHIEVE, publicado no The Lancet em 2023, idosos com maior risco de declínio cognitivo que passaram a usar aparelho auditivo apresentaram redução de 48% na velocidade do declínio cognitivo ao longo de 3 anos, em comparação com os que não usaram.

O que fazer, na prática

O primeiro passo é simples: medir. A audiometria é um exame rápido, indolor, feito no próprio consultório, que mostra exatamente o tipo e o grau da perda. A partir daí, os caminhos variam: algumas causas têm tratamento clínico (uma cera impactada, uma otite serosa), outras têm indicação cirúrgica (perfurações do tímpano, otosclerose, colesteatoma) — e, para muitas, o aparelho auditivo bem adaptado é a resposta certa.

Sobre o aparelho, vale desfazer um mito: ele não precisa ser inacessível. Existem hoje opções em diversas faixas de preço, além de vias de acesso pelo sistema público. O que não dá é para adiar: quanto mais tempo o cérebro fica sem o estímulo sonoro adequado, mais difícil é a adaptação.

Ouvir é conviver

Costumo dizer aos meus pacientes que a música me ensinou o valor da audição: ela une as pessoas. A perda auditiva faz o movimento contrário — separa, devagar, sem que a gente perceba. Cuidar da audição na maturidade é cuidar da memória, da independência e, acima de tudo, da convivência com quem amamos.

Se você percebeu que anda pedindo para repetirem as coisas, procure um otorrinolaringologista. É uma consulta simples que pode mudar os seus próximos vinte anos.

Referências

· Livingston G, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024.

· Lin FR, et al. Hearing intervention versus health education control to reduce cognitive decline in older adults with hearing loss in the USA (ACHIEVE). The Lancet, 2023.

· Organização Mundial da Saúde. World Report on Hearing. Genebra: OMS, 2021.

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